sexta-feira, 18 de março de 2011

A mulher e o rádio

Dedicado a F.
Sabe aqueles dias em que a gente acorda e é tomado por um fato que muda tudo o que acreditávamos? Um dia, numa semana de um mês do ano passado encontrei nas palavras de uma vizinha, a verdadeira história de uma senhora a que todos diziam ser louca. Era a manhã de um sábado, eu varria a calçada de casa quando a “louca” passou me cumprimentando. Ela vestia um vestido bege, calçava havaianas azuis (das tradicionais) e segurava próximo ao seu ouvido um rádio amarelado. Andava como se o som que ouvisse fosse o condutor para seu caminho. Sorri e comentei com uma vizinha “Será que até na hora de dormir ela fica com o rádio ligado?” A vizinha me olhou séria e disse “Isso tudo por causa de um AMOR!” Eu sempre gostei de histórias, mas quando soube a daquela mulher, as cartas de Mariana Alcoforado já não me emocionavam tanto.
A história que ouvi num dia, numa semana, de um mês do ano passado agora as reproduz para vocês:
Era o ano de 1970, a nossa protagonista tinha na faixa de uns quinze anos, era frágil e não entendia muito bem as coisas do mundo. Todo o dia depois da aula passava no mercado público (antes o mercado público daqui de santa Cruz funcionava também como ponto de encontro para os jovens daquela época). Numa dessas voltas pelo mercado, à menina distraída acabou despertando o olhar de um radialista da cidade de Alexandria. Ele teria vindo a Santa Cruz a trabalho, mas quando viu a moça esqueceu seu ofício e a seguiu até em casa. Passou alguns segundos imaginando o que iria falar até que bateu palmas e a jovem saiu da casa correndo ao encontro daquele barulho. Na parte externa da casa freou bruscamente ao vê-lo. Seu pai chegou logo depois, mas não antes que os olhos dele se encontrassem com os da moça, que seus corações vibrassem e a paixão tomasse conta de suas almas. “Olá, eu sou radialista da rádio Tapuyo de Alexandria e estou aqui a trabalho, poderia me conseguir um copo de água?” Quando ela chegou e o entregou o copo com água, sua mão num breve instante tocou a mão dele, como se a paixão fosse agora concretizada, tremiam (ele para beber a água, ela pra perguntar se queria mais): “Obrigado” (querendo dizer “vem comigo”), “por nada” (querendo dizer “me leva com você”)
O fato é que aparentemente eles nunca mais se encontraram, até o dia que ela novamente distraída ouviu uma música que vinha da cozinha e ao acabar uma voz que dizia “essa é pra você menina linda de Santa Cruz que me olhou como nunca haviam antes me olhado”. Dias seguiram e ela ao lado do rádio, comia, tomava banho e sim dormia esperando ouvi-lo. Se alguém o desligasse ou ameaçasse o tirá-lo, ficava triste, não se alimentava e dizia “meu namorado não vai saber que estou o esperando”. Seus pais preocupados cederam, compraram um rádio e ela passou até sair de casa com ele próximo ao ouvido, pois queria que todos conhecessem seu namorado. Considerada louca, até ganhou apelido!
Quarenta anos depois ela continua enamorada do radialista. Talvez nem seja o mesmo (provavelmente não é), mas ela ainda o ama como o dia em que o conheceu e, tem por ele a mesma devoção que uma esposa companheira. Ainda diz que todos os dias ele escolhe músicas que a farão sonhar durante a noite.
Por que ele nunca a procurou? Desculpe, eu não sei responder. Só sei que um dia, numa semana, de um mês do ano passado eu descobri que o amor realmente existe e, quero que todos saibam que nossa protagonista não é e nunca foi louca, apenas amou alguém com todo seu coração, sua força e alma.

4 comentários:

  1. A história dela só não tão bonita quanto a nossa Amor, mas assim com ela Te Amo com todo coração, com toda a minha força e alma. Saudades!!!

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  2. Que historia liiinda! Só fico curiosa pra saber quem é a tal senhora...

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  3. quem é a pessoa que ama e quem é a amada desconheço, no entanto saber que esse relatado caso de amor é algo que nos proporciona esperança de amar ou ser amado algum dia posso afirmar por mim mesma.
    Mau N.P.

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  4. Gente ao ler a historia lembrei logo de uma pessoa,não sei devo arriscar dizer o nome... mas eu tenho quase certeza que sei que é... afinal quem nunca viu em Santa Cruz uma senhora com um radinho ao pé do ouvido e não se indagou sobre a razão disto.
    Adorei parabéns,Santa Cruz precisa de destaque no ambito da intelectualidade e a propósito ja sou sua fã de Carteirinha!!
    Adriana Duarte

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